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Bem-estar animal

NELSON MOURA
SEXTA-FEIRA, 11/04/2014

Bem-estar animal

Quanto mais conforto, melhor será a resposta em produção, reprodução e longevidade do rebanho

 

Conforto animal contribui para melhorar índices da atividade leiteira

 

Mônica Salomão

 

Cada vez mais, o bem-estar animal vem ganhando espaço nas discussões científicas e no dia a dia de muitas propriedades que já constataram os bons resultados trazidos a partir da adoção de ações que visam o conforto do rebanho leiteiro, como é o caso da Fazenda Bravinhos, propriedade de 110 hectares localizada em Carmo do Paranaíba (MG). Seu proprietário, o produtor Daniel André da Silva, está na atividade leiteira há 33 anos e depois de utilizar por 16 o sistema de produção a pasto, em 1997 mudou para o semi-confinado.

 

Com o passar do tempo, ele constatou que seu rebanho estava apresentando um desempenho melhor na época da seca, período em que as condições de conforto eram maiores e a alimentação era fornecida no cocho. “Enquanto na seca eu chegava a produzir 4.000 litros, nas águas a produção abaixava para 2.500 litros/dia. Isso sem contar os prejuízos com descarte em decorrência de problemas de mastite e casco”, explica o produtor associado à Cooperativa Agropecuária de Carmo do Paranaíba (CARPEC), organização parceira da CCPR.

 

Para trazer mais estabilidade à produção, Silva se viu diante de duas alternativas: mudar o grau de sangue do rebanho ou investir em um sistema que proporcionasse mais conforto aos animais da raça holandesa. Depois de avaliar junto ao veterinário especialista em nutrição Luis Galiote, consultor da propriedade, os prós e contras das duas propostas, Silva optou pela implantação do compost barn, um sistema de produção muito utilizado nos EUA e ainda novo no Brasil. O sistema, que está em fase final de implantação na propriedade, é composto basicamente por um barracão com piso coberto por serragem, que é utilizada como cama para os animais, não possui separações como no free stall e a pista de alimentação fica em uma das laterais da instalação.

 

A propriedade possui dois barracões com pé direito de 5 metros que juntos têm capacidade para abrigar 110 animais. No momento, ele está sendo utilizado por 108 vacas em lactação, responsáveis pela produção de 3.100 litros/dia. “A experiência tem me mostrado que o rebanho responde de forma positiva quando submetido a boas condições de conforto. Então minha expectativa agora é diminuir os problemas de casco e mastite para, dessa forma, conseguir aumentar a produção e reduzir o descarte precoce de animais”, espera.

 

O bem-estar pode ser definido como o estado de harmonia entre o animal e o ambiente, caracterizado por condições físicas e fisiológicas ótimas e alta qualidade de vida. Isso quer dizer que o animal precisa viver sem sofrimento, em condições que se aproximem ao máximo do comportamento natural da espécie e lhe permitam produzir de acordo com a sua capacidade.

 

Segundo a pesquisadora da Embrapa Gado de Leite Maria de Fátima Ávila Pires, é importante que os produtores fiquem atentos ao bem-estar dos animais, ou seja, que se certifiquem se eles estão sendo bem tratados e se têm qualidade de vida. “Trabalhamos com base nestes preceitos porque já constatamos por meio de vários experimentos que quando o produtor melhora as condições de bem-estar dos animais consegue melhorar também a produção e reprodução, enfim há aumento no desempenho produtivo, reprodutivo e melhoria na qualidade do alimento, neste caso o leite”, atesta.

 

Por outro lado, quando o animal está com o bem-estar comprometido seu sistema imunológico também fica comprometido e, consequentemente, ele fica mais suscetível às doenças, principalmente à mastite. Da mesma forma, situações de desconforto proporcionadas, por exemplo, por altas temperaturas também podem acarretar em prejuízos. “O calor é um aspecto muito estudado, principalmente no exterior. Pesquisas apontam que a perda de produção de leite pode chegar a 30% e a taxa de reprodução cair em 10% em decorrência do desconforto térmico. Muitas vezes, a vaca fica repetindo cio e o produtor nem desconfia que possa ter relação com o calor”, alerta Maria de Fátima.

 

De acordo com a pesquisadora, o bem-estar está diretamente relacionado com as necessidades do animal, por isso a importância de se oferecer alimento e água de qualidade e em quantidade suficiente para ele consumir quando desejar. “Um ponto muito importante é o espaço do cocho, que para atender bem deve ter de 70 a 80 cm por animal”, enfatiza.

 

Outro aspecto apontado por ela diz respeito às instalações, que precisam ser bem planejadas, bem cuidadas e com condições de higiene adequadas. “Na hora de definir o local para construir a sala de ordenha, por exemplo, é recomendado escolher um espaço em que seja possível aproveitar o máximo de ventilação natural. Ainda vemos em muitas propriedades salas de ordenha construídas próximas a um barranco e isso é um erro, pois além de impedir a ventilação natural acarreta em custos de instalação da ventilação artificial”.

 

Maria de Fátima também chama a atenção para a importância do sombreamento, seja ele natural ou artificial. “Parece tão óbvio dizer que a vaca precisa de sombra, mas quando você olha nossas pastagens percebe que há pouquíssima disponibilidade de árvores ou sombrites. Independente se natural ou artificial, a questão é que precisamos oferecer sombra aos animais. Principalmente no curral de espera, acho prioritário porque a vaca está prestes a ser ordenhada e precisa se sentir confortável nesta etapa de preparação”, aconselha.

 

Assim como o sombreamento, o descanso é um aspecto indispensável para o bem-estar do rebanho. A pesquisadora explica que, em sistemas confinados, se não for oferecida à vaca uma cama confortável ela não vai se deitar. Quando isso ocorre, o animal acaba permanecendo mais tempo em pé do que deveria e as consequências são a redução do consumo e, principalmente, lesões de casco. Já no sistema a pasto, as condições de descanso são mais favoráveis na medida em que a vaca tem mais disponibilidade de espaço e, por sua vez, mais opções para encontrar a “cama que lhe agrade mais”.

 

Outra questão de extrema relevância neste contexto é a relação do homem com o animal. Maria de Fátima avalia que de nada adianta o produtor estar com a nutrição, reprodução, sanidade e instalações adequadas se a pessoa que lida com o animal desenvolver atitudes negativas. “O bovino tem memória e guarda a fisionomia da pessoa que xinga, fala alto e, principalmente, que bate ou utiliza qualquer material que possa lhe causar dor e sofrimento. Ele guarda essa fisionomia e toda vez que está na presença dessa pessoa lhe é gerado um estresse, que quando atinge um nível crônico e prolongado pode prejudicar também a produção de leite”, esclarece. Segundo ela, por falta de conhecimento, nem sempre o tratador tem consciência dos danos que causa ao animal. “Muitas vezes, ele age assim porque esse ‘aprendizado’ foi passado de geração para geração. Então a maneira de reverter esse quadro é com treinamento e qualificação da mão de obra”, ensina.

 

Animado com os resultados que os investimentos em bem-estar animal já começaram a lhe render, o produtor Daniel da Silva começa a planejar as próximas ações. “Terminada essa fase de implantação das instalações desses dois barracões, minha intenção é construir um terceiro para as vacas no pré-parto. Com isso, as vacas secas também vão sair no lucro, já que a propriedade tem muitas árvores e também sombrites nas áreas de pasto, antes ocupadas pelos lotes de vacas em lactação. Quem quiser se firmar na atividade tem que oferecer conforto aos animais. Agindo assim, eles certamente responderão em produção e longevidade”, recomenda.

 

 

Fonte: Itambé

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